Com o 8 de março se aproximando, penso ser importante a gente refletir sobre os feminismos e como o transfeminismo vem sendo crucial na ressignificação e oxigenação da luta feminina.
O feminismo, ao longo do tempo, tem sido uma das principais ferramentas de luta das mulheres por igualdade de gênero e contra o patriarcado e a misoginia, mas precisamos pontuar e entender que o feminismo não é um movimento homogêneo. Existem várias vertentes, dentre elas o transfeminismo, que vem ganhando bastante força dentro do movimento.
O conceito transfeminista surge da união da luta pela igualdade de gênero e os direitos das pessoas trans, oferecendo uma visão ampla e mais inclusiva que desafia os padrões de gênero tradicionais e ressignifica a luta feminista, por expandir noções de sujeito, visões de corpo e compreensões de mundo.
O transfeminismo vai além da inclusão das mulheres trans na agenda feminista. Ele propõe uma crítica profunda às normas de gênero binárias que moldam a sociedade. Em vez de reduzir gênero a uma questão biológica, rígida e imutável, o transfeminismo propõe que gênero seja visto como uma construção social que pode ser revista e desconstruída. Isso amplia a luta feminista, tornando-a mais aberta e inclusiva para todas, independente da sua identidade de gênero. Aposta em um sujeito político difuso, plural e poroso.
É preciso reconhecer que as opressões vão nos afetar de diferentes formas de acordo com os nossos marcadores sociais. O feminismo durante anos trouxe apenas a ótica das mulheres cisgêneras, mas ao trazer luz sobre as opressões sofridas pela população trans, observamos uma assustadora realidade ao redor do mundo, principalmente aqui no Brasil, que lidera o ranking mundial de assassinatos por 16 anos consecutivos (dados da Transgender Europe), com 117 assassinatos de mulheres trans e travestis em 2024, conforme aponta o dossiê anual de assassinatos da ANTRA.
E o avanço de setores conservadores na política traz como principal alvo a perseguição às pautas trans, só no Brasil temos 77 leis antitrans em vigor, demonstrando a necessidade da luta transfeminista se fortalecer e ser a centralidade da luta pela igualdade de gênero e autonomia sobre os corpos. Se fomos eleitas como o principal alvo da investida contra os Direitos Humanos empreendida pelos setores conservadores, queremos dizer que resistir é uma estratégia de luta. Nossas agendas são fortes justamente porque se constroem às margens, sem pretensão de repetir os erros do centro.
Assim, um crescente movimento que vem dando muita contribuição para a luta transfeminista é o reconhecimento dos transmasculinos no debate, trazendo uma nova ótica para assuntos cruciais como as opressões machistas e dando uma oportunidade de reinventarmos a masculinidade tendo o feminino como aliado e não mais como algo a ser combatido e subjugado. O transfeminismo, portanto, não se limita a adicionar um novo grupo à luta feminista. Ele propõe uma mudança de paradigma, uma reavaliação de como entendemos o gênero e as dinâmicas de poder que o sustentam. Ao questionar as normas binárias de gênero, o transfeminismo contribui para a construção de uma sociedade mais justa e menos discriminatória. Ele fortalece o feminismo, tornando-o mais plural e capaz de dar voz a todas as pessoas, sejam elas cisgêneras, queer ou trans.
Em resumo, o transfeminismo não só expande os horizontes do feminismo, mas também o torna mais rico e relevante para os tempos atuais. Ele é fundamental para transformar a luta pela igualdade de gênero em uma causa mais inclusiva, que respeite a diversidade de identidades e promova um mundo mais justo para todas as mulheres. Ao desafiar as normas estabelecidas, o transfeminismo abre caminho para uma sociedade onde todos podem ser livres para existir sem medo, com menos violência e discriminação.