Quem tem medo de Xica Manicongo?

É o título do samba enredo da Escola de Samba GRES Paraíso do Tuiuti, que vai contar a história da primeira Travesti não indígena do Brasil, de forma revolucionária. Embora as corpas trans e travestis, sempre estivessem presentes nas escolas de samba do Rio e São Paulo, nunca nenhuma ousou em trazer como tema central, a história não só de Xica, mas a de milhares de pessoas trans e travestis que resistem até os tempos de hoje, a um sistema que querem higienizar nossas corpas e corpos todos os dias.

Xica Manicongo, era uma mulher negra, que foi trazida roubada do Congo, para Bahia, junto a muitas e muitos de seu território na África, trabalhando de forma exploratória por um sapateiro. Xica era rainha no Congo, mas ao ser trazida para o Brasil, foi submetida a negar sua identidade, e viver em condições às quais tirava dela o direito da realeza. Mas ela se negava ao que foi imposto, e por isso, foi perseguida, acusada do crime de sodomia e bruxaria, tendo sua corpa queimada em praça pública, mesmo tendo em algum momento, depois de muita pressão, se submetido a usar trajes ditos masculinos, negando sua identidade. Na história, por seu nome não constar nos registros como Xica, não tínhamos esse registro tão precioso para as nossas narrativas existenciais, até que pesquisadoras trans conseguiram fazer esse resgate da memória das nossas.

A Paraíso do Tuiuti sai pioneira na história do carnaval carioca, e brasileiro, não só por resgatar essa importante história, mas por dar o protagonismo durante a construção, os ensaios e no dia do desfile, a grandes nomes da construção de luta de pessoas trans e travestis em todo território brasileiro. Um dos destaques, é a primeira travestis, que veio á frente dos ritmistas da Beija-Flor em 1976, a convite de Joãozinho 30, assim considerada a primeira Rainha de Bateria do Carnaval brasileiro, nossa maravilhosa Eloína dos Leopardos, que também irá desfilar com destaque na Tuiuti. Para além dela teremos artistas como Valéria Barcelos, Iara Canta, parlamentares como Érika Hilton, Dani Balbi, e nossa Deputada Estadual Linda Brasil, mulheres dos movimentos sociais como Bruna Benevides, Jaqueline Gomes, e muitas outras que fortalecem nossa luta.

Embora os dados nos mostram todos os dias a tentativa do apagamento de nossas histórias, lutas, e conquistas, seguimos ocupando e revolucionando o sistema, porque Xica Vive, e nos fortalece enquanto ancestralidade.